Flecha no ar #1 | Land Portal

Quantos povos e deuses têm sido assassinados em nome de uma falsa identidade nacional, produzida e reproduzida na base da violência, do assassinato, do estupro e da mais intensiva extração e expropriação de tudo?

Quantos povos e deuses têm sido assassinados?

A gente assistindo em qualquer tela uma pessoa ser asfixiada até a morte pelo Estado – modelo que o ocidente decidiu ser o melhor para a organização coletiva da vida. É o normal e o normal é uma ruína. Era a isso que queríamos regressar?  O preço da comida, dos aluguéis, os despejos, as epidemias, as chacinas, tudo isso atinge sempre com maior virulência as pessoas negativamente racializadas, empobrecidas, periféricas. É a certas populações que o risco de ser eliminados como povo está posto. É racismo estruturado em todas as crueldades.

Quantos povos e deuses têm sido assassinados em nome do Brasil? – essa abstração. Não existe um só Brasil, não existe um único modo de estar vivendo em cima deste chão imenso. O sistema não é apenas a pretensão de uma forma econômica totalitária, ele é totalitário também por ser um modelo totalitário de gente. E isso também está em crise; não há só um modo de ser Brasileiro, não há só um modo de ser gente, não há apenas uma maneira de estar vivo e interagindo com o meio em algum pedaço dessa terra. 

Quantos povos existem no Vale do Javari? Quantas povos, com maneiras distintas de organizar a vida e experimentar outras formas de ser sociedade? Quantas línguas, deuses, espíritos mágicos e conhecimentos acalentados ao longo dos tempos? Quantos povos não contactados existem ali?  A dizer que não querem se relacionar com o mundo que generalizamos em cima da terra. Não querem participar do que somos, não desejam nada do que temos. Povos que querem unicamente o direito de não se envolverem na sombria maquinaria ocidental.

É que o antissistema mais visceral e utópico existe, está aí, esgueirando-se das incessantes ameaças à sua existência como modo de vida radicalmente diferente do capital. Povos que não compartilham a ideia de posse, onde o idioma não permite falar de si mesmo em desconexão com o que vive além da nossa pele, idiomas onde a palavra líder só existe no plural. Outras lógicas, completas.

É por isso que a disputa por território tem sido o cenário de violências e assassinatos há tanto tempo. Sejam disputas pelo território físico ou pelo controle e influência sobre ele, disputas sobre o modo como a gestão coletiva da vida acontece ali ou seja pelo uso que se dará a uma porção de terra.

A floresta é capaz de converter as pessoas, ela que emana lucidez, é uma vida da qual dependemos e que precisa ser resguardada . Quem se irmana a essa maneira de estar vivo é ganho pelos encantados e Orixás que só existem se a mata estiver de pé, que só existem nas águas doces que brotam, nos mangues. Os povos da floresta se valem de seus próprios corpos e existências como barreira para o avanço genocida da sociedade branca.

A disputa pela terra é, na verdade, uma disputa pela história – a que aconteceu e a que pode se desenrolar: já foi possível viver diferente? É ou não é possível ter relações distintas entre nós e tudo o que nos rodeia? A existência da floresta viabiliza outros mundos, feito fatos, feitos realidade simultânea e radicalmente antagônicos à sanha do capital.

O coração de Bruno pertencia à floresta e ele se amalgamou com ela defendendo-a com a própria vida, sabendo o vínculo inexorável entre as existências. É dilacerante saber de seu assassinato e sentir comunitariamente a dor que arranca de repente o caminho de nós.

Este é um governo de assassinos, é um governo declaradamente inimigo da vida, dos defensores e defensoras da vida, inimigo dos pobres, dos humanos que não são à sua imagem e semelhança, inimigo dos rios, dos animais. Um governo que decreta o assassinato de tudo o que não é espelho, ele confere medalhas a quem mata mais e a quem tortura. Governo que se apóia em radicalizar o genocídio que estruturalmente nos acompanha há séculos, sem mediações, sem tergiversar, sem vacilar.

Precisamos arrancá-lo do poder e iremos conseguir, na bênção dos que se foram, entregando o próprio corpo como escudo 

Precisamos arrancá-lo do poder e iremos conseguir, mas não estará resolvido. Nunca esteve, nem nos séculos de colonização e nem nas poucas décadas de democracia. Precisamos mudar a maneira como vivemos, urgentemente, ao invés de agarrar falsas ilusões de que alguma reforma poderia transformar em bem estar social o que experimentamos apenas como o mal estar na civilização. 

O sistema destrói povos e deuses sempre que prega o progresso e sempre que tece em conjunto com as forças repressoras, golpistas, patriarcais, coloniais, punitivistas e/ou alinhadas com a ordem. A nossa raiva precisa ganhar espaço e forma num movimento coletivo; nossa raiva é uma existência tão legítima quanto potente, não deve ser desmotivada, não é o contrário de amor e a um só tempo nos identifica como oprimidos e nos arranca da condição passiva para o revide. A digna raiva zapatista que também se nutre das raízes conectadas subterrâneamente por toda Abya Yala.

Este é um governo de assassinos e nós precisamos arrancá-lo do poder, e nós iremos conseguir. Tanto mais quanto nos movemos para além dessa ideia de nação – que os poderosos sempre mobilizaram para nos destruir.  É para além do nacional, já que os tiros atingem também o carro onde vai o presidente da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, a CONAIE. É para além do nacional já que celebramos Fancia Marquez sem tirar os olhos do que acontece no Brasil, onde a justiça condena uma criança em nome de seu fundamentalismo cristão, branco, burguês e cis-hetero-patriarcal. 

Este é um governo de assassinos e nós precisamos arrancá-lo do poder, eu acredito que nós iremos conseguir e a força empenhada em tirá-los do poder deve seguir seu curso depois, comprometida com devolver o poder às múltiplas mãos de onde ele emana. 

É preciso se comprometer com isso.

Em ser radicalmente antiracista, independente de quem estiver na cadeira presidencial. É defender a floresta e os povos da floresta, independente de quem esteja no palácio ou na casa real, é defender a possibilidade de viver fora da ordem da mercadoria, como um direito a pensar diferente, a compreender e experimentar outras maneiras de organização do poder, do tempo, da vida, de tudo.

Mesmo diante do horror, ainda se fazem presentes as forças ancestrais de todos os povos aqui já vencidos por esta maquinaria ocidental mortífera. Mesmo diante do horror, idiomas foram preservados, pedaços de natureza, maneiras de articular relações comunitárias, de fazer saúde, de passar pela vida atentos ao rastro que ela deixa atrás de si.

Este sistema é uma ruína tentando apoderar-se do que ainda não se curvou ao seu pensamento único, ser humano único, estado único, única nação, único idioma, único jeito de ser feliz. 

É por isso que enquanto alguém estiver em risco,nenhum de nós estará a salvo. É por isso que, enquanto a floresta estiver em risco, nenhum de nós estará a salvo.

Nossos corpos urbanos, desterrados, favelados, também estão expostos defendendo comunidades ameaçadas em sua existência coletiva, basta lembrar dos 25 mortos um mês atrás, na Vila Cruzeiro, ou dos 25 um ano atrás, no Jacarezinho, ou dos tantos mortos em qualquer data que apontarmos aleatoriamente, porque nos territórios onde os pobres se amontoam também estamos em guerra. 

Que possamos nos irmanar, nos defender com tanta radicalidade quanto nos atacam. Que possamos recuperar na mesma medida que nos saquearam e saqueiam – é a possibilidade que temos de frear o fim do mundo.

Que seja feita justiça no caso de Bruno e Don, mas que seja justiça completa. Nomeando quem matou e quem mandou matar, a serviço de que interesses. Que seja feita justiça completa porque a terra precisa ser tomada como sujeita de direitos,  ela e o povo que a ela pertence, nutrindo interdependentes florestas e maneiras de articulação comunal mais alinhadas com os ciclos da vida. 

Querem nos fazer acreditar que não há outra maneira de escapar e estamos fadados a reproduzir a resposta branca, mesmo quando crítica. Querem destruir nossa capacidade de contar histórias, de inventar histórias, de viver história, produzindo historia simultaneamente. 

Que seja feita justiça completa, uma que nos aproxime de um governo da terra e dos povos da terra,  de um mundo sem prisões, sem cárceres, sem classes sociais, sem estado, sem propriedade privada, sem opressão. Que nos aproxime de uma governança horizontal que corresponda um pouco melhor à abundância que a Floresta e seus povos, generosamente, nunca nos negaram.