Angola: Agricultores expulsos por diamantíferas — “Estamos a sofrer muito, há pessoas a morrer de fome” | Land Portal | Protegendo os direitos da terra através de dados abertos
A Lunda habitada há séculos por comunidades agrícolas está a perder terreno. O soba da Lunda Norte falou do “muito sofrimento” das populações da região diamantífera onde “também vivem pessoas que estão a morrer à fome”, denunciou o chefe tradicional que culpa pela situação as promessas incumpridas das diamantíferas.

 

Fonte: A semana

 

A Lunda do nome do povo que habita, segundo fontes históricas, desde pelo menos o século XV, a região e que se organizou em comunidades agrícolas, está a perder terreno, nos dois sentidos, devido à pressão das companhias diamantíferas sobre os terrenos agrícolas. As duas imagens de satélite, à direita, de 2001, à esquerda de 2015, mostram a progressão da mina em pouco mais de uma década na região que perdeu o verde.
 
A implantação das diamantíferas na Lunda — que é uma das maiores áreas de exploração de diamantes a nível mundial — foi negociada entre as diamantíferas e a população local. Podiam instalar-se e em troca a população teria direito a terrenos, à água, luz, educação, saúde e emprego.
 
Agora os sobas começam a falar. Isso conta, na edição de domingo, 17, o correspondente em Luanda da agência noticiosa portuguesa, Lusa, que esteve à conversa com dois desses chefes tradicionais da Lunda.
 
O soba Moçambique Kafula, do bairro Kafula Luele, na Lunda Norte, falou do “muito sofrimento” das populações da região.
 
Os diamantes brotam da terra que virou castanha enquanto entre a população “há pessoas que estão a morrer à fome”, denunciou o chefe tradicional que culpa pela situação as promessas incumpridas das diamantíferas.
 
Continuam por cumprir as promessas dadas como contrapartida — direito à água, luz, educação, saúde e emprego — , as áreas de exploração progridem, como na imagem (foto) de satélite que flagrou uma queimada (área a vermelho-vivo a nordeste).
 
 
Diamantíferas
 
A primeira mina de diamantes angolana é a Catoca, que segundo media económicos, como a Bloomberg, é a quarta maior do mundo. O site da Endiama informa que a produção cresceu dos dois milhões de carats no ano de 2005 a perto de dez milhões no ano transato. O carat vale cerca de 100 dólares. As reservas estimam-se em sessenta milhões de carats.
 
Fundada em co-participação pela nacional Endiama em 32,8 por cento, a russa Alrosa em 32,8, a brasileira Odebrecht em 16,4% e o consórcio transnacional Diamond Finance CY BV Group em 16,8%, quase vinte anos depois a Alrosa aumentou a participação (e, embora as fontes citáveis não deem essa informação, consta que detém a maioria).
 
A Fucauma, que produz 120 mil carats por ano, começou por ser co-participada pela nacional Endiama em 40 por cento, o consórcio transnacional Trans Hex em 35%, e outros. A Luarica, que produz 95 mil carats por ano, começou por ser co-participada pela nacional Endiama em 38 por cento, o consórcio transnacional Trans Hex em 32%, e outros.
 
As proporções de participação nacional na altura da criação das quatro maiores minas de diamantes de Angola – as duas referidas mais a Luarica e a Camafuca, com reservas estimadas respetivamente em … 23 milhões de carats —são as mesmas. Nota-se que a co-participada Alrosa tem aumentado a sua participação.
 
Técnicas de agricultura desde século XV
 
A História desenvolvida na última metade do século XX dá conta do domínio que os Lundas tinham sobre a agricultura. Eles tinham elaborado técnicas adaptadas ao espaço tropical.Venceram "as dificuldades naturais nas terras onde viviam" porque "tinham estudado a natureza e feito da natureza uma amiga e aliada", escreveu Basil Davidson, na sua obra de 1978.
 
Os avanços na agricultura tiveram impacto na demografia. O aumento populacional levou à expansão do território, do atual Congo até à região mais a sul e leste. Uma área muito maior que a atual: a evolução histórica confinou-os ao atual espaço no nordeste de Angola.
 
A produção das comunidades agrícolas evoluiu com as novas espécies adquiridas em trocas comerciais com as zonas litorâneas, do Atlântico e do Índico. Os Lundas perceberam o interesse em desenvolver as novas espécies mais resistentes de milho e mandioca vindas da América.
 
À luz da lição da História, que os interessados desconhecem ou não têm meios para mobilizar em seu benefício, antevê-se a morte da região agrícola, como na evolução histórica que confinou os Lundas ao atual espaço no nordeste de Angola (ponto laranja no mapa de África reduzido, no canto inferior direito da foto).
 
A morte da agricultura dá-se agora sob pressão das companhias diamantíferas, que arrasaram os terrenos agrícolas. Compare-se o recuo do verde nas imagens de satélite (à direita, de 2001, à esquerda de 2015), que mostram a progressão da mina em pouco mais de uma década na região que perdeu o verde.

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