Mulheres e ação climática: tecendo resistências no Sul Global | Land Portal

Foto: UN Women/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

As agressões à terra, ao meio ambiente e a aniquilação da vida no planeta fazem parte das ações humanas que causaram um dos fenômenos mais catastróficos das últimas décadas: as mudanças climáticas. Os impactos das mudanças climáticas incluem secas, tempestades, ondas de calor terrestres e marítimas, derretimento de geleiras e uma série de impactos sociais, principalmente sobre as sociedades humanas mais vulnerbilizadas desde as invasões coloniais. Após mais de 500 anos de invasão e genocídio, um estudo de 2020 revela que o Norte Global é responsável por 92% do excesso de emissões globais de carbono (1).

As mulheres, principalmente as periféricas, racializadas e das mais variadas geografias, são as principais afetadas pelos desastres climáticos na atualidade. Sobre elas recaem as tarefas de reconstruir suas comunidades, encontrar e preparar alimentos e o cuidado que se expressa de muitas maneiras para reproduzir a vida, não apenas cuidando das pessoas, mas da complexidade de vidas que habitam o planeta. Isso se transfere tanto para o mundo dos humanos quanto para o mundo dos espíritos, onde está a memória ancestral dos povos. Apesar do complexo trabalho de cuidado que realizam, de acordo com o relatório do Women in Finance Climate Action Group (2), 80% das pessoas deslocadas pelas mudanças climáticas são mulheres.

Os efeitos prolongados dos desastres naturais causados pelas mudanças climáticas afetam milhares de populações em todo o mundo. Para as populações que conquistaram o direito à posse da terra, esse direito é ameaçado por esses desastres. Esse é o exemplo das comunidades da região central das Filipinas. Após a passagem do furacão Haiyan, milhares de famílias foram impedidas de reconstruir suas casas porque a terra em que estavam assentadas foi retomada por uma corporação (3).

Outras populações, como no caso da cidade de Recife, no Brasil, têm de enfrentar a dor de perder familiares soterrados pelo desabamento de suas casas, bem como o impacto econômico de reconstruir suas residências do zero e recuperar lentamente seus pertences. A distribuição desigual do território, que coloca as populações periféricas, negras, indígenas e não brancas nas áreas de maior risco, responde a lógicas racistas enraizadas nas veias da região latino-americana. Não é coincidência que as concentrações de lugares impactados pela emergência climática estejam relacionadas à divisão racial do território herdada de sociedades constituídas pela escravidão e tortura de grupos humanos que continuam vivendo as consequências de opressões permanentes, que mudam de forma, mas preservam as bases de sua lógica estrutural.

Em Moçambique, as inundações que ocorreram em fevereiro de 2023, na cidade de Maputo, teriam afetado 40.000 pessoas e cujo desastre está intimamente relacionado às mudanças climáticas. É importante enfatizar que não são os países africanos e do sul global que mais poluem o planeta e causam o aumento dessa mudança; no entanto, eles são os principais territórios a pagar por essas consequências (4). O aumento do nível do mar afeta a existência das 38 ilhas do território autônomo ancestral de Guna Yala (5), no Panamá, e a diminuição da área terrestre de São Tomé e Príncipe (6). O aumento da temperatura do mar afeta os meios de subsistência das comunidades pesqueiras e o ecossistema marinho que vivem no território das águas.

Na América Central, a fome é uma das principais consequências de uma série de furacões que atingiram particularmente a costa caribenha do istmo. Em 2021, 7.700 pessoas foram registradas como afetadas pela fome na Guatemala, El Salvador e Nicarágua após os furacões Eta e Iota. Mais uma vez, as principais populações afetadas continuam sendo as racializadas. Em contrapartida, as principais políticas públicas de combate aos impactos climáticos em diferentes países do sul global estão entre aqueles que não vivenciam essas consequências e desfrutam de uma série de privilégios de classe, raça/etnia e gênero, estando suas narrativas no centro dos debates sobre as questões climáticas. As articulações da mídia oficial mais amplamente documentadas sobre a ação climática respondem a essa lógica de privilégio que invisibiliza ações concretas nos territórios de vida no sul global.

 

Reorganização da horta comuniatária de Caranguejo Tabaiares no Recife, Brasil. Iniciativa do Coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste

Sementes, corpos e resistência

A memória ancestral de alguns povos é vivida em um tempo circular e de retorno. Desde a Guatemala, Lorena Cabnal conta como o tempo maia tem 13 fios enrolados em uma pedra. Isso significa que a memória é capaz de alcançar uma dimensão complexa e ampla por meio da oralidade e dos movimentos astronômicos (8). Apesar da escravização e das invasões, a memória ancestral vive e se reconfigura, sendo uma ferramenta fundamental para a continuidade do cuidado com a vida que é produzida em diferentes comunidades hoje impactadas pelo clima.

Esses povos não são apenas vítimas nessa situação, pois também são atoras e atores organizados em um processo de reconfiguração de seu próprio território por meio de práticas de autogestão e emancipação. Diante da fome e da doença que assolou o mundo durante a pandemia da COVID-19, o coletivo Caranguejo Tabaiares Resiste, na cidade de Recife, organizou uma horta comunitária para garantir a autonomia alimentar de sua comunidade. A memória ancestral das e dos habitantes do Caranguejo Tabaiares reorganizou um terreno baldio na favela que trouxe alimentos, medicina e cura (9).

Na costa caribenha da Nicarágua, as organizações comunitárias das Regiões Autônomas do país se coordenaram para identificar as comunidades mais afetadas pelos furacões de 2020 (Eta e Iota) e 2022 (Julia), pela pandemia de COVID-19 e pelo deslocamento forçado de famílias indígenas e afrodescendentes causado por colonos não indígenas que destroem e queimam as plantações dos povos. Cientes da fome e da invasão dos territórios autônomos do Caribe, essas organizações geraram projetos para distribuir sementes e plantar pequenos lotes de terra cujas colheitas poderiam ser distribuídas entre as comunidades. Por meio do tecido comunitário, elas semearam autonomia e resistência. Os cultivos promovidos nos territórios caribenhos da Nicarágua acompanham os processos de cura das pessoas, nutrindo o corpo terra e o corpo espírito.

O foco das discussões globais sobre o clima continua preservando a antiga hierarquia daqueles que detêm o poder de falar por si mesmos e pelos outros e as outras. É uma narrativa que busca continuar mantendo as pessoas como informantes em vez de autoras e autores da própria história. Por meio da comunicação popular em diferentes regiões do mundo, foram geradas contranarrativas que capturam as ações concretas de diferentes povos diante dos impactos climáticos por meio de técnicas ancestrais que são expressas na memória. Atualmente, muitos defensores e protagonistas dessas ações emancipatórias sofrem assédio, criminalização e perseguição política. O risco à vida de defensoras e comunidades inteiras é latente e cotidiano.

O corpo de muitas mulheres que assumem a liderança na defesa territorial e na ação climática está cansado e doente. Assim como o território, esse corpo sofre desapropriação, imposições e opressão. Concentrar a atenção das narrativas climáticas nas mulheres defensoras é apenas uma das muitas ações urgentes nessa defesa desigual da vida que lhes rouba o descanso e a paz. Proteger, defender e garantir o direito ao descanso das defensoras territoriais também é uma ação climática emancipatória para aquelas que enfrentam batalhas seculares. O descanso e o cuidado com o corpo/terra também é um ato político que não deve ser privilégio exclusivo daqueles que estão no centro do discurso global sobre as questões climáticas hoje em dia. Os fundos globais para a mudança climática poderiam muito bem incluir entre seus objetivos a gestão de recursos de cuidados que fortaleçam as mulheres defensoras pelas enormes contribuições que fazem e fizeram ao tecer redes de vida. Essa seria uma maneira de repensar a ação climática a partir das perspectivas daquelas que estão dentro dos territórios e de quem vive concretamente as consequências locais dos impactos globais.

Referências

(1) HICKEL, Jason. Quantifying national responsibility for climate breakdown: an equality-based attribution approach for carbon dioxide emissions in excess of the planetary boundary. The Lancet Planetary Health, 2020. Disponível em: <https://www.thelancet.com/journals/lanplh/article/PIIS2542-5196(20)30196-0/fulltext#.YbqJ50l0JA8.twitter>

(2) Women in Finance Climate Action (2021). Women in Finance Climate Action Group Report. Diponível em: <https://genderclimatetracker.org/resource/23178/?s>

(3) DJ Yap. Land-grabbing now prevails in ‘Yolanda’ disaster areas—right groups. Philippine Daily Inquirer, 2013. Disponível em: <https://newsinfo.inquirer.net/544803/land-grabbing-now-prevails-in-yolanda-disaster-areas-right-groups

(4) ONU. Moçambique quer amplo debate sobre crise do clima no Conselho de Segurança. ONU News, 2023. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2023/02/1809872>

(5) Ministerio de Ambiente. Pobladores de la Comara Guna Yala son capacitados en adaptación y mitigación del cambio climático.  MiAMBIENTE, 2022. Diponível em: <https://www.miambiente.gob.pa/pobladores-de-la-comara-guna-yala-son-capacitados-en-adaptacion-y-mitigacion-del-cambio-climatico/#:~:text=La%20comarca%20ind%C3%ADgena%20de%20Guna,frecuencia%20de%20tormentas%20y%20huracanes>

(6) Banco Mundial. Plano multissectorial de investimentos de São Tomé e Príncipe: integrar a resiliência às alterações climáticas e o risco de catástrofes na gestão da zona costeira São Tomé, junho de 2017 Integrar a resiliência às alterações climáticas e o risco de catástrofes na região da zona costeira. Disponível em: <https://www.gfdrr.org/sites/default/files/publication/Multi%20Sector%20Investment%20Plan%20for%20resilience%20Sao%20Tome%20and%20Principe%20June%202017.pdf>

(7) ONU. Mudança climática ameaça população e economias latino-americanas. ONU News, 2022. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2022/07/1796132>

(8) Instituto Pacs. Defender o território-terra e não defender o território-corpo das mulheres é uma incoerência política. Em: Outras Economias: alternativas ao capitalismo e ao atual modelo de desenvolvimento. Instituto Pacs, 2018. Disponível em: <https://pacsinstituto.medium.com/defender-o-território-terra-e-não-defender-o-território-corpo-das-mulheres-é-uma-incoerência-4ec7621e790b>

(9) MARTINEZ, Amanda. Reorganização da Horta de Caranguejo Tabaiares. Revista Amazonas, 2023. Disponível em: <https://www.revistaamazonas.com/2023/10/09/reabilitacao-da-horta-de-caranguejo-tabaiares/>

 

 

 

 

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